Um município, muita história e muitos lugares

Por Leonardo Morato, turismólogo

Os primeiros registros da presença dos bandeirantes na região de Pitangui são do final do século 17, em 1696. Na ocasião, quando chegaram à terra movidos pela busca do ouro, avistaram indígenas que se banhavam no ribeiro e fugiram assustados, deixando algumas crianças na margem. O rio recebeu, por isso, o nome de “Pitang-i”, rio das crianças na língua indígena.

Já o povoamento do arraial teve início em meados de 1710, quando os paulistas expulsos de outras localidades após a Guerra dos Emboabas se estabeleceram no território, onde descobriram grandes jazigos auríferos, como o do Morro do Batatal. Ao tentar manter em segredo a descoberta do ouro, os bandeirantes impediam a presença de forasteiros, com violentas ameaças.

Mas, turbulentos conflitos pela posse das lavras e contra o pagamento de impostos se sucediam. Com a elevação do arraial a vila, em 1715, Pitangui passou a ser conhecida, tornando-se ponto de abastecimento e passagem para os sertões de Goiás. Essas disputas culminaram na Revolta da Cachaça, em 1719, e no Motim de 1720, o primeiro grande conflito armado contra as tropas da coroa no período colonial.

Ao longo de três séculos Pitangui foi palco de importantes acontecimentos da história de Minas Gerais e do Brasil, com personagens como Domingos Rodrigues do Prado, Padre Belchior, Maria Tangará, Gustavo Capanema, Borjalo, dentre outros. Mas, a célula-mãe do Centro-Oeste mineiro também guarda tesouros como a personagem Anastácia.

Identificada como “a virgem de olhos azuis” e símbolo de resistência e rebeldia contra o assédio e os castigos dos “sinhôzinhos” do período escravocrata, Anastácia era sobrinha-neta do lendário Chico Rei (da dinastia Galanga, do Congo). De acordo com registros históricos, era muito bela. Nasceu na Fazenda do Pompéu (e, escravizada, trabalhou como mucama), quando sua mãe, Delminda, foi comprada pela renomada fazendeira Joaquina do Pompéu.

Após seu falecimento, Anastácia foi considerada mártir e santa por aqueles que vivenciaram seus milagres (nas minas de Pitangui e em outras paragens) e tiveram suas preces atendidas por ela. Sua imagem, retratada com uma máscara de zinco que cobria a boca, é cultuada até hoje em irmandades religiosas como as de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos.

Arte de Jacques Etienne Arago, século 19

O ouro de Pitangui foi usado na construção de palácios em Portugal, ajudou a financiar a Revolução Industrial na Inglaterra e atraiu gente de toda parte, que contribuiu com a formação da identidade pitanguiense. Logo, o patrimônio cultural do município vai além da diversificada arquitetura de seus casarões. Passa pelas tradições, costumes, saberes e crenças populares, pelas paisagens naturais, lendas, lugares e por muitas histórias.

Com seus 306 anos em 2021, Pitangui tem a arte da receptividade como característica marcante de seu povo. Dispõe de boa infraestrutura turística e de serviços em geral, incluindo hotéis, pousadas, bares, lanchonetes, restaurantes e espaços para eventos com capacidades para atender muitas pessoas, com as devidas prevenções contra a covid-19.

Acreditamos na cultura como prática de valorizar as origens históricas de Pitangui, abordando o passado e o presente com um olhar no futuro, utilizando a sétima arte como instrumento de educação, tema desta terceira Mostra de Cinema de Pitangui.

Atrativos turísticos

Antiga estação ferroviária – Construída no início do século 20, a estação foi inaugurada em 23 de novembro de 1907 para receber a linha férrea que passou a ligar Pitangui à estação de Velho da Taipa e a outras regiões, através da EFOM (Estrada de Ferro Oeste de Minas). A antiga estação de trem já teve diversas funções, como: rodoviária, biblioteca municipal, sede da Lira Musical, Centro de Atendimento ao Turista, Museu da História de Pitangui, entre outras. Mas, desde o início trouxe ares de progresso e vanguarda cultural, quando recebia as companhias teatrais que circulavam de trem pelo interior do estado e viu nascer o futebol em Pitangui, praticado nas horas vagas pelos operários da ferrovia.

Antiga estação ferroviária (Foto: Leonardo Morato)

Capela do Bom Jesus – Encomendada por bandeirantes, a capela em estilo barroco romano foi construída em 1748 por José Gonçalves Ferreira. Conta-se que a imagem do Senhor Bom Jesus foi deixada sob a guarda de moradores enquanto os bandeirantes seguiam viagem, até a capela ficar pronta.

Capela do Bom Jesus (Foto: Rodrigo Paiva)

Capela de São José – O templo histórico foi construído em 1886, na antiga rua da ponte João Cordeiro, hoje rua São José. Já o cruzeiro fixado na praça à frente da capela é mais antigo, datado do ano de 1878.

Capela de São José (Foto: Luciene Resende)

Igreja Matriz de Nossa Senhora do Pilar – A primeira Matriz de Pitangui foi erguida nos primeiros anos de fundação da Vila e existiu até 1914, quando foi consumida por um incêndio. A nova igreja foi construída no mesmo local durante de 1915 e 1921, em estilo eclético, dentro de um conceito modernista da época.

Matriz do Pilar (Foto: Rodrigo Paiva)

Chafariz – Edificado em 1835, na época da canalização da água potável em Pitangui, tornou-se um espaço de socialização e troca de informações entre os escravizados, que se dirigiam àqueles locais com frequência. Em seu frontispício, destacam-se o Brasão do Império acompanhado da frase ‘Viva a Constituiçam’ e as típicas carrancas que ornamentavam suas bicas d’água. Ladeado pela Igreja Matriz e por casarões históricos o Chafariz compõe um belo cenário.

Chafariz (Foto: Leonardo Morato)
Chafariz e Matriz (Foto: Leonardo Morato)

Sobrado do Padre Belchior – O imponente casarão (atual sede da Prefeitura) situa-se à rua de mesmo nome. Vigário de Pitangui no início do século 19, o padre Belchior Pinheiro de Oliveira foi confidente e mentor espiritual de D. Pedro I durante o processo de independência do Brasil, culminado em 7 de setembro de 1822. Mineiro de Diamantina, Belchior residiu em Pitangui entre os anos de 1816 e 1821 e seus restos mortais estão no sepulcro localizado no adro da Matriz.

Sobrado do padre Belchior (Foto: Rodrigo Paiva)

Casarões do Jardim – Belos casarões coloniais e em estilos variados, edificados nos séculos 18, 19 e 20, situados no entorno da praça Governador Benedito Valadares, conhecida como Praça do Jardim.

Casarões do Jardim (Foto: Leonardo Morato)

Sobrado do Museu Histórico – Casarão onde morou Joaquina do Pompéu, fazendeira e personagem da região no século 19. O imóvel está em fase final de restauro para abrigar o Museu de Arte Sacra e o Arquivo Judicial de Pitangui, sob a tutela do Instituto Histórico de Pitangui (IHP) – função que a instituição exerceu entre 1970 e 2004.

Sobrado do Museu Histórico (Foto: Rodrigo Paiva)

Sobrado de Maria Tangará – Um dos principais cartões postais da cidade. O imponente casarão serviu de sede da Casa da Intendência, Fórum e abrigou a Escola Estadual Professor José Valadares. Maria Tangará era uma grande fazendeira da região de Pitangui, conhecida como “Dama do Sertão” e foi uma das matriarcas do Centro-Oeste mineiro.

Sobrado de Maria Tangará (Foto: Rodrigo Paiva)

Igreja de São Francisco de Assis – Um dos mais belos templos religiosos da cidade, foi erguido a partir de 1850 no Alto das Cavalhadas, em estilo barroco tardio. As obras se prolongaram por vários anos, fazendo com que o templo recebesse a consagração eucarística somente no ano de 1872. A igreja abrigou, por muitos anos, as principais festividades religiosas da cidade durante a reconstrução da Matriz de Nossa Senhora do Pilar, que havia pegado fogo em 1914. Na praça que compõe o adro da igreja encontram-se conservados casarões, edificações históricas dos séculos 18 e 19 e o monumento dos 300 anos de Pitangui, compondo um belo cenário.

Igreja de São Francisco (Foto: Leonardo Morato)
Igreja de São Francisco (Foto: Leonardo Morato)

Casarão e Capela da Santa Casa de Misericórdia – Construído em 1844 e restaurado em 2011 pela Prefeitura, o imponente casarão mantém suas características arquitetônicas originais e foi o primeiro hospital de Pitangui, inaugurado em 1847. Anexa ao prédio está uma singela capela histórica, construída no mesmo ano.

Casarão e capela da Santa Casa (Foto: Rodrigo Paiva)

Capela de Nossa Senhora da Penha – A primeira edificação do templo foi construída nos primeiros anos do descobrimento de Pitangui, por volta de 1709, por José de Campos Bicudo, sogro do Velho da Taipa. O estilo predominante é o barroco romano, com altar-mor e arco cruzeiro em colunas de madeira pintada. Ao lado da Capela da Penha encontram-se a casa do Velho da Taipa (considerada como construção mais antiga de Pitangui), um trecho da Estrada Real (antigo caminho dos tropeiros), as minas de ouro desativadas, a estátua em homenagem aos bandeirantes e o Morro do Batatal, onde foi encontrado muito ouro de aluvião.

Capela da Penha (Foto: Leonardo Morato)

Estação Cultural Velho da Taipa – Situada às margens do rio Pará, a cerca de cinco quilômetros de Pitangui. O nome do povoado é atribuído ao bandeirante Antônio Rodrigues Velho – o Velho da Taipa. Construída para receber a ferrovia no ano de 1891, a estação foi restaurada em 2010, sendo reativada como um museu que guarda a memória dos ferroviários por meio de objetos, utensílios e documentos do tempo do trem. O espaço cultural está sob a tutela de Cristina Benícia. Constitui-se como um bom exemplo da relação entre cultura, história e preservação da memória, impulsionando a atividade turística.

Estação Cultural (Foto: Leonardo Morato)

Capela da Cruz do Monte – A capelinha situa-se no alto da Serra, a 1.100 metros de altitude, aproximadamente, de onde se tem uma vista privilegiada de toda Pitangui, em especial ao fim de tarde. Existem duas versões sobre a sua origem. A primeira é de que em 1880 os fazendeiros da região ergueram a capela para que seus escravizados fizessem cultos e orações, evitando, assim, que fossem assistir às missas na Vila. Na segunda versão, em 1888, os próprios escravizados haviam construído o templo, em comemoração à Abolição da Escravatura. Próximo à capela encontra-se o Mirante do Cristo Redentor, construído no ano 2000 e revitalizado em 2014 (pelas respectivas administrações municipais), proporcionando maior integração do mirante com a paisagem local.

Capela da Cruz do Monte (Foto: Leonardo Morato)
Mirante do Cristo (Foto: Leonardo Morato)

Outros caminhos – Além dos atrativos histórico-arquitetônicos, Pitangui guarda diversas manifestações culturais transmitidas entre gerações e abriga um grande patrimônio ambiental composto por matas, rios, serras e trilhas propícias para as práticas de caminhadas, corridas e esportes radicais como mountain bike e motocross. As comunidades rurais são cheias de tradições e fazendas centenárias que produzem a tradicional cachaça de alambique, queijos, quitandas e doces fabricadas artesanalmente. Por tanto, para uma breve visita ou uma longa estada, o que não faltam são atrativos e roteiros diversificados.

Fogão à lenha (Foto: Leonardo Morato)
Turismo rural (Foto: Leonardo Morato)

Roteiro turístico

A tricentenária Pitangui, sétima vila de Minas, fundada no ciclo do Ouro em 1715, dispõe de um vasto patrimônio histórico que vai além da materialidade de seus casarões de estilos diversificados. O patrimônio ambiental do município é composto por belas paisagens com serras, rios, matas e trilhas. No entorno encontram-se as comunidades rurais com suas tradições, fazendas centenárias e a produção artesanal da boa cachaça de Pitangui, dos doces, queijos e quitandas típicas. Os atrativos culturais imateriais abrangem saberes, celebrações, costumes, as artes e os sabores da terrinha, além de salvaguardar arquivos documentais que atraem visitantes e pesquisadores de várias localidades.

Os pitanguienses, com o seu jeito acolhedor e solícito, têm o seu cantinho especial e um lugar para levar um amigo ou familiar que visita a cidade. Para que a sua estada seja uma experiência ainda mais interessante, a nossa sugestão para um roteiro histórico em Pitangui é a seguinte:

Começar de manhã pela Capela do Bom Jesus, passar na Capela de São José, seguir para a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Pilar, ir até ao Chafariz, descer a Praça da Câmara, conhecer o casarão onde viveu o Padre Belchior, atual sede da prefeitura, e seguir para a Praça do Jardim e apreciar o casario de estilos diversos, com destaque para o sobrado do Museu, que abriga o Instituto Histórico de Pitangui.

Depois a dica é passar pelo casarão onde morou Maria Tangará, subir até a Igreja de São Francisco de Assis, contemplar seu adro, passar em frente ao antigo casarão e capela da Santa Casa, em seguida passar pela praça Antônio Fiúza, depois subir até o bairro Penha pelo Morro do Batatal, visitar a bucólica Capela de Santo Antônio e conhecer a casa do bandeirante Velho da Taipa. Na volta, passar pela desativada Mina da Lavagem e pela casa onde residiu Borba Gato.

Depois, uma pausa para almoço nos restaurantes da cidade, que servem a tradicional comida mineira. Outra opção é degustar um peixe frito nos bares à beira do Rio Pará, como no povoado do Velho da Taipa, há cinco quilômetros de Pitangui. Após o almoço, visitar o Museu do Ferroviário, conhecer o acervo e ouvir as histórias da Cristina, na antiga estação de trem.

No fim da tarde, a dica é subir até à serra da Cruz do Monte para apreciar a vista, a brisa e o belo pôr do Sol. Na sequência, descer até algum boteco local para uma boa prosa acompanhada de cerveja gelada e petiscos, interagindo com os pitanguienses. Depois desse tour, é hora de fazer uma breve pausa para descanso nas pousadas e hotéis da cidade.

Para encarar a noite, as opções de bares, pizzarias, cervejarias e lanchonetes, depois da exibição dos filmes da 3ª Mostra de Cinema.

Visite Pitangui, a nossa receptividade te espera!